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A criação da urna eletrônica: a história contada por um de seus idealizadores

O engenheiro Antônio Esio Salgado foi convidado para eventos no TRE-SP neste sábado (3), em preparação ao 1º turno das Eleições 2026

À direita, um homem de terno azul sorri e, ao lado esquerdo, está a primeira urna eletrônica, mo...

“A urna me deixa muito feliz”, declarou o engenheiro Antonio Esio Marcondes Salgado, o Toné, um dos idealizadores da urna eletrônica, durante entrevista realizada na exposição preparada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) para celebrar os 30 anos da urna. O engenheiro, que atualmente trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), continuou: “A urna é uma quebra de paradigma aqui no Brasil que faz com que você fique contente, porque é um negócio que mantém o status de democracia no Brasil”.

Antonio Salgado visitou o TRE-SP para acompanhar os procedimentos para o 1º turno das Eleições 2026, incluindo a cerimônia de escolha das urnas que serão submetidas ao Teste de Integridade neste domingo (4). Ele integrou a Comissão Avaliadora do Teste de Público de Segurança do Sistemas Eleitorais em 2025. O engenheiro e professor fez parte da Comissão de Notáveis e, mais especificamente, do grupo de especialistas que ficou conhecido como “ninjas” no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Início: o problema e a solução

Toné conta que começou a colaborar com o TSE antes do projeto da urna, em 1993, por convite do então secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal, em um projeto para modernização do parque computacional da Justiça Eleitoral. Com a entrada de um novo presidente, o ministro Carlos Velloso, e um novo secretário de TI, Paulo Camarão, o projeto ganhou impulso. “O grande problema que tinha que ser mitigado na Justiça Eleitoral era a contagem dos votos. O escrutínio tinha muito problema. Então, o ministro Velloso já tinha conhecimento de algumas experiências em alguns Tribunais Regionais e falou para o Paulo Camarão: ‘Vamos fazer um coletor eletrônico de votos, o CEV’.”

Ao relembrar os desafios da votação em papel, Toné destaca que as dificuldades iam além de eventuais erros na contagem dos votos. Para ele, o modelo também criava barreiras para pessoas que não sabiam ler ou escrever e que tinham dificuldade para identificar o candidato ou o número de sua preferência. Foi nesse contexto que a urna eletrônica também passou a ser pensada como uma ferramenta de inclusão. 


Toné, um dos criadores da urna eletrônica, ao lado dos desembargadores Roberto Maia e Encinas Manfré 

A primeira eleição da urna eletrônica

De acordo com Salgado, o CEV rapidamente se transformou na urna eletrônica e, com o apoio da comissão, foi se tornando a máquina que hoje conhecemos. Em relação à primeira eleição parcialmente eletrônica no Brasil, Toné ressaltou que em 1996, a população confiou na solução encontrada pela Justiça Eleitoral para que a votação fosse de fato rápida, segura e transparente. "Mais do que confiar, na verdade, eles sentiram orgulho", disse.

Toné explica que o teclado foi desenvolvido propositalmente com o mesmo formato do telefone, por ser um equipamento já conhecido pela população. Seria a primeira eleição com um equipamento completamente inovador, mas a ideia era tornar a votação mais simples e acessível, para que os eleitores pudessem participar efetivamente do processo democrático. “Essa foi a ideia, fazer com que a urna fosse um mecanismo real de inclusão. As pessoas realmente se sentiram pertencentes ao jogo da democracia.”

30 anos da urna eletrônica: o passado e o futuro da Justiça Eleitoral

Sobre o processo de aperfeiçoamento do sistema eletrônico de votação, incluindo auditorias como o Teste Público de Segurança, que conta com a participação e colaboração de especialistas na busca por fragilidades ou pontos de melhoria na urna eletrônica, o engenheiro comparou as evoluções da urna a uma corrida. “É uma espécie de corrida. As soluções técnicas existem, a Justiça Eleitoral adota essas soluções técnicas, uma vez que vulnerabilidades são descobertas, a Justiça Eleitoral tem que se adiantar e mitigar essas vulnerabilidades. Então, é uma corrida o tempo todo”, afirmou. Até hoje, nunca foi encontrada nenhuma vulnerabilidade capaz de comprometer o resultado da eleição ou o sigilo do voto.

Toné destacou mudanças implementadas no equipamento ao longo dos anos, como o teclado de membrana, presente no primeiro modelo de 1996, que logo foi trocado por um teclado tátil, facilitando a familiarização de eleitores e eleitoras com a máquina. Ele reforça que o sistema continua sendo aprimorado a cada nova geração de urnas. “Cada uma delas tem a implementação de um novo requisito de segurança, de uma nova particularidade.”

Em relação ao trabalho da Justiça Eleitoral nesse contexto, o engenheiro lembra que um ministro do TSE costumava comparar a realização das eleições a uma festa. “Eleição é como se fosse uma festa, a festa da democracia. A diferença é que nós estamos dando essa festa. Então, você cuida de tudo, porque você quer que as pessoas fiquem alegres e curtam a celebração. É essa a função da Justiça Eleitoral”, conta.


Toné, o des. Encinas Manfré e o juiz assessor da Presidência, Renato Siqueira, ao lado da urna 1996

Críticas e desinformação

Ao falar sobre a desconfiança em relação ao sistema eletrônico de votação, Toné relembra uma conversa com um conhecido que acreditava ser possível fraudar a urna eletrônica. Ele explicou que o equipamento não é conectado a nenhuma rede durante a votação e, por isso, não poderia ser fraudado. 

No entanto, essa situação o levou a refletir sobre a importância de buscar informações antes de reproduzir afirmações sobre as eleições. “Procure saber antes, porque isso que você está fazendo pode não ter impacto para você, mas pode ter impacto para uma pessoa que pode não acreditar e começar a falar mal, e isso pode se propagar, o que é ruim para a gente mesmo”, disse ao colega.

Para o especialista, as críticas infundadas a respeito do voto eletrônico podem ser facilmente rebatidas. "Pergunte para quem critica: você sabe que o software da urna é auditado, passa por Testes Públicos de Segurança, é verificado por cientistas, por universidades, pela Polícia Federal? Sabe que as correções são feitas e o software é assinado antes de ser fechado, lacrado? Você sabe que a urna testa esse software antes de ligar efetivamente? Você sabe que a urna não é conectada a nada? Quando você começa a falar isso, a pessoa entende."

imprensa@tre-sp.jus.br

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