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30 anos da urna eletrônica: os problemas da votação manual que levaram ao sistema eletrônico
Urna grávida, voto formiguinha, mapismo: relembre os tipos de golpe que impulsionaram a transição do voto em papel para o sistema eletrônico no Brasil
Mesas enfileiradas em ginásios, milhares de cédulas espalhadas, servidores trabalhando durante dias seguidos e resultados que, muitas vezes, demoravam semanas para serem conhecidos. Até meados da década de 1990, essa era a realidade das eleições brasileiras. Antes da urna eletrônica, todo o processo de votação e apuração era feito manualmente. A forte dependência da atuação humana tornava o sistema vulnerável a erros e também a diferentes modalidades de fraude, que podiam ocorrer desde a preparação das urnas até a divulgação dos resultados oficiais.
Neste texto, que integra a série especial os “30 anos da urna eletrônica”, produzida pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), relembramos como funcionava o antigo sistema eleitoral, as fraudes mais recorrentes registradas nas eleições em papel e o episódio que consolidou a necessidade de modernização da votação no Brasil.
Como aconteciam as fraudes
Desde o Império e durante boa parte da República, denúncias de manipulação eleitoral acompanharam diferentes pleitos. A criação da Justiça Eleitoral a partir do Código de 1932 representou um passo importante para fortalecer a fiscalização do processo eleitoral, mas as limitações do voto em cédulas de papel continuavam permitindo fraudes em diversas etapas da eleição.

Imagens publicadas em 1909 pela revista Careta mostram um coronel entregando uma cédula eleitoral a um votante. Foto: Biblioteca Nacional Digital
As vulnerabilidades do sistema manual permitiam que irregularidades fossem praticadas antes, durante e depois da votação. Uma das mais conhecidas era a chamada “urna grávida”. Antes mesmo da abertura da seção eleitoral, cédulas já preenchidas eram colocadas dentro da urna de lona, que deveria iniciar a votação completamente vazia.
Outra fraude recorrente era o “voto formiguinha”. O eleitor recebia uma cédula oficial, mas, em vez de preenchê-la e depositá-la na urna, escondia o documento e colocava qualquer outro papel em seu lugar. Do lado de fora da seção, um organizador do esquema recolhia a cédula oficial em branco, marcava os candidatos previamente escolhidos e a entregava ao próximo eleitor, que depositava aquele voto já preenchido e saía novamente com outra cédula em branco. O ciclo podia ser repetido dezenas de vezes ao longo do dia.
Também havia o “voto estoque”, em que cédulas de reserva disponíveis nas seções eleitorais eram preenchidas ilegalmente e inseridas nas urnas.
As fraudes alcançavam ainda a identificação dos eleitores. Com documentos falsificados, uma pessoa podia votar em nome de outra ou comparecer a diversas seções eleitorais com identidades diferentes. Esse tipo de fraude ficou conhecido como “eleitor fósforo”, expressão usada para designar quem conseguia “riscar” várias urnas ao longo do mesmo dia de votação.
As irregularidades, no entanto, não terminavam quando a votação era encerrada. Durante o transporte, urnas oficiais podiam ser substituídas por outras previamente abastecidas com votos ou até mesmo roubadas antes de chegarem aos locais de apuração.

Pacotes de cédulas de votação oficiais no armazém do TRE-SP, na Vila Leopoldina Crédito: Centro de Memória Eleitoral (Cemel)
Na etapa de contagem dos votos, surgiam novas possibilidades de manipulação. Na chamada “fraude cantada”, o apurador anunciava em voz alta números diferentes daqueles registrados nas cédulas para que fossem lançados incorretamente nos mapas eleitorais. Em outros casos, a própria pessoa responsável por registrar os votos alterava os números durante o preenchimento desses mapas.
Outra prática bastante conhecida era o “mapismo”. Depois da contagem, os resultados de cada seção eram escritos em sistemas de totalização. Nessa fase, votos podiam ser retirados de um candidato e atribuídos a outro da mesma legenda, mantendo o total de votos da urna, o que dificultava a identificação da fraude.
Além de todas as fraudes já mencionadas, também eram registrados casos de preenchimento indevido de votos em branco. Como os eleitores utilizavam uma caneta azul para votar e os apuradores marcavam as cédulas conferidas com uma caneta vermelha, votos deixados em branco podiam ser posteriormente preenchidos com tinta azul antes da conclusão da apuração.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mantém uma página especial que explica a importância do processo eletrônico no país e como as fraudes eram realizadas nas eleições em que a contagem dos votos era feita por meio das cédulas de papel.

Servidores mostram embalagens para as cédulas únicas, usadas pela primeira vez em 1955. Crédito: Centro de Memória Eleitoral (Cemel)
A resposta da Justiça Eleitoral
Três décadas após a implantação do sistema eletrônico de votação, práticas como urnas previamente preenchidas, adulteração de boletins de apuração e longas recontagens pertencem apenas ao passado. Essas fragilidades, observadas no antigo modelo de votação, ajudaram a impulsionar um processo de modernização que já vinha sendo estudado pela Justiça Eleitoral.
A estreia da urna eletrônica, nas eleições municipais de 1996, representou mais do que a troca de um equipamento, marcou uma mudança estrutural na forma de votar e de apurar os resultados, reduzindo a intervenção humana justamente nas etapas que, por décadas, concentraram as principais ocorrências de fraude.
Reveja os textos da série sobre os 30 anos da urna:






