Restrições da lei de combate ao crime organizado não vigoram para as Eleições 2026
TSE entende que alterações da lei, sancionada neste ano, sobre dispositivos do Código Eleitoral não podem ser aplicadas ao pleito por ferirem princípio da anualidade eleitoral

Na sessão administrativa realizada nesta quinta-feira (23), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que o alistamento e a instalação de seções eleitorais nos estabelecimentos prisionais devem ser mantidos para as Eleições 2026.
Por unanimidade, o Plenário definiu que as alterações promovidas pela Lei nº 15.358/2026, que institui o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil, não podem ser adotadas para o pleito de outubro por ferirem o princípio da anualidade eleitoral (artigo 16 da Constituição Federal).
O princípio dispõe que uma lei que muda o processo eleitoral não pode ser aplicada a eleições que venham a ocorrer a menos de um ano de vigência da norma. Com a decisão do TSE, as inovações feitas pela lei em dispositivos do Código Eleitoral só passarão a ter efeitos práticos nos pleitos seguintes ao deste ano.
Questionamento
No processo administrativo examinado, a Corregedoria Regional Eleitoral de São Paulo (CRE-SP) questionou o TSE sobre a necessidade do alistamento e da instalação de seções eleitorais nos estabelecimentos prisionais, tendo em vista as modificações no Código Eleitoral feitas pela Lei nº 15.358/2026.
Ao alterar dispositivos da norma, a lei fixou, entre outras mudanças, que a condição de prisão temporária ou provisória passa a ser motivo de impedimento para o alistamento eleitoral e de cancelamento da inscrição, se já tiver ocorrido (artigos 5º e 71 do Código Eleitoral).
Impacto na organização das eleições
Ao analisar o assunto, o TSE considerou que a lei, sancionada em março deste ano, alterou dispositivos estruturantes do Código Eleitoral, o que esbarra no princípio da anualidade.
Como a lei introduziu mudanças expressivas no Código, o Plenário entendeu que tais medidas modificam o regime jurídico dos direitos políticos de determinado número de votantes e a formação do próprio eleitorado, o que requer que seja observado o prazo constitucional de um ano para a sua aplicação.
Voto do relator
No voto, o relator do processo administrativo, ministro Antonio Carlos Ferreira, manifestou-se pela inaplicabilidade das alterações feitas pela lei para o pleito deste ano. Segundo o ministro, o respeito ao princípio da anualidade eleitoral é indispensável para garantir a segurança jurídica e a estabilidade das "regras do jogo" democrático.
"A anualidade eleitoral é prevista na Constituição Federal. Conforme esse princípio, a lei entra em vigor na data de sua publicação, mas, para garantir a previsibilidade, a segurança jurídica e a adequada organização, ela não se aplica à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”, destacou o ministro Antonio Carlos Ferreira.
Impactos operacionais e técnicos
O TSE decidiu pela impossibilidade material de implementar as mudanças no curto prazo pelas seguintes razões, entre outras, levantadas pela área técnica do Tribunal:
Fechamento do cadastro: o prazo para alterações no cadastro eleitoral vai até 6 de maio de 2026, tempo insuficiente para novas adequações sistêmicas.
Falta de interoperabilidade: atualmente, os sistemas da Justiça Eleitoral não possuem integração automatizada com órgãos de segurança para o registro de prisões provisórias (sem condenação definitiva), o que impossibilita o cancelamento automático de inscrições previsto na nova lei.
Manutenção de seções prisionais: com a suspensão da eficácia eleitoral da lei para este ano, ficam mantidas as ações de alistamento e a instalação de seções eleitorais em estabelecimentos penais para garantir o voto dos presos provisórios, conforme as diretrizes vigentes e as determinações do Supremo Tribunal Federal (STF).
O TSE ressaltou que a lei permanece válida em seu caráter penal e de segurança pública, conforme sancionada.
Mudança na legislação
A Lei nº 15.358/2026 estabelece um novo paradigma no combate ao crime organizado ao endurecer as penas para grupos ultraviolentos e priorizar a asfixia financeira mediante a perda imediata de patrimônio ilícito.
No âmbito eleitoral, o texto introduz restrições, prevendo o impedimento do alistamento e o cancelamento da inscrição eleitoral de presos provisórios, visando blindar o processo democrático contra a influência direta de lideranças criminosas.
Processo relacionado: Processo Administrativo 0600587-56.2026.6.00.0000
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
