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Cartório de SP garante atendimento em Libras em 100% dos locais de votação nas Eleições 2026
Nomeações permitem que eleitores com deficiência auditiva de Jandira, na Grande São Paulo, possam votar com mais autonomia
Um trabalho de formiguinha, mas com final recompensador. A fim de promover um cenário mais inclusivo nas Eleições 2026, a 304ª Zona Eleitoral – Jandira, na Grande São Paulo, conseguiu recrutar ao menos um apoio logístico em Língua Brasileira de Sinais (Libras) para cada um dos seus 29 locais de votação. O treinamento para o pleito deste ano reuniu todos os apoios com essa habilitação.
Similar aos mesários, os apoios logísticos são eleitores convocados e nomeados para atuarem como elo entre as seções eleitorais de um local de votação. Conforme Resolução TSE nº 23.751/2026, os cartórios têm a faculdade de nomear os apoios, cabendo a essas pessoas prestar diferentes atividades de logística no pleito e no Teste de Integridade. Entre as categorias de apoio, existe a de Libras, responsável por orientar e oferecer suporte ao eleitorado que possui deficiência auditiva.
Multiplicando oportunidades
O sucesso de Jandira nas convocações deste ano não foi espontâneo e surgiu por um desejo de melhorar a experiência com relação à eleição de 2024, quando o cartório havia conseguido convocar apenas três apoios com conhecimento em Libras. Em vez de ceder ao desânimo com a pouca adesão da época, a equipe da 304ª ZE decidiu mudar a estratégia. Logo após a eleição, com a reabertura do cadastro, passaram a fazer uma busca ativa e contínua durante os atendimentos diários.
“Quando o eleitor dizia saber Libras, já pegávamos o contato e procurávamos entender sua vivência com a língua. A ideia do boca a boca era exatamente essa: fazer com que cada novo voluntário se tornasse um multiplicador da nossa rede”, detalha o chefe da unidade, Caio Souto.
Foi um trabalho de dois anos de toda a equipe, mas que surtiu efeito quando o cartório pôde selecionar 29 apoios com conhecimento em Libras, de 116 convocados no total. Desses 29, três já trabalharam no último pleito e os demais são novatos, descobertos justamente pelo esforço da zona eleitoral. Mas o retorno foi de tal forma positivo que houve, na verdade, um superávit de apoios com essa habilitação.
“Inclusive, depois de ter fechado o quadro de convocados, ainda surgiram mais pessoas interessadas. Tanto que conseguimos pegar substitutos em Libras na nossa zona”, complementa Caio, que também recomenda a prática do boca a boca a outros cartórios como forma de achar voluntários.

Mais acessibilidade
Além dos apoios em Libras, o cartório também possui, para o atual pleito, 31 coordenadores de acessibilidade (apoio logístico nomeado pelo juiz e responsável por verificar as condições de acessibilidades gerais no local de votação). Dos coordenadores, sete também atuam como apoio em Libras. Segundo o gestor, o objetivo é criar um ambiente de tal forma acessível para que os eleitores com deficiência possam agir de forma plenamente autônoma no dia do pleito, sem necessidade de acompanhantes.
“Fazer a pessoa ser independente: é isso que buscamos aqui, seja para quem tem mobilidade reduzida ou alguma outra deficiência, mas que ela seja acolhida no dia da votação e que se sinta confortável para poder expressar sua vontade”, acrescenta Caio.
Treinando a nova leva
Os treinamentos de todos os apoios logísticos foram conduzidos pelas servidoras Adeline Marques e Rosângela Silva, e ocorreram na semana de 24 a 28 de agosto. No caso dos apoios em Libras, tratou-se de uma fase importante para a maioria, que atuará num pleito pela primeira vez.
Como explica o chefe, a ideia é deixá-los preparados para quaisquer eventualidades na função de apoio, ensinando-lhes sobre o funcionamento da urna e as atribuições de mesários, mas destaca que o foco continua, de fato, em promover a acessibilidade. “Eles vão funcionar como apoio quando não demandados nessa tarefa específica. Mas a prioridade deles é para comunicação em Libras, se o eleitor manifestar esse tipo de atendimento”, completa.
Comunicar é incluir
Se o cartório empenhou-se em criar ambientes acessíveis, também parte desse êxito se deve à plena participação dos eleitores convocados, como foram Sulamita Mansilla e Andrea Maria da Silva, que atuarão como apoio em Libras pela primeira vez durante um pleito. A história de ambas com a pauta de acessibilidade é antiga. Sulamita aprendeu Libras desde 2006 ao se aproximar de uma colega surda no ensino médio, que, em virtude da barreira de linguagem, costumava ficar só. “[Eu] me aproximei dela e pedi que me ensinasse Libras. Eu escrevia para ela, ela lia e me respondia por sinais. Aos poucos, fui aprendendo com ela, através dessa convivência e dessa troca”, menciona.
O que era antes uma inclusão pontual, transformou-se em missão: Sulamita aprofundou seus conhecimentos e hoje fica feliz em usar suas habilidades no pleito. “Trabalhar como apoio em Libras significa, para mim, muito mais do que exercer uma função. É uma oportunidade de contribuir para a inclusão, a acessibilidade e o exercício da cidadania”, relata.

Também uma sensação de conquista foi para Andrea, que acredita no uso da comunicação como forma de agregar. “Em 2007, comecei a aprender Libras por acreditar que comunicação é também uma forma de acolher e incluir. Desde então, foram 19 anos de aprendizado, encontros e descobertas. Hoje, poder colocar esse conhecimento a serviço da cidadania é motivo de muita alegria e gratidão. Inclusão, para mim, é quando ninguém precisa se perguntar se aquele espaço também é para si. É simplesmente saber que pertence.”
“Não há liberdade plena se houver limitações, físicas ou intelectuais, impedindo que as atividades sociais e políticas sejam exercidas da mesma forma por pessoas diversas. O mandamento constitucional não pode se tornar uma bolha normativa oca. Nesse sentido, o apoio logístico em Libras, no local de votação, vem ao encontro das diretrizes nacionais e mundiais de acessibilidade e exercício pleno do direito político”, conclui o juiz da 304ª ZE, André Tomasi de Queiróz.
Central de Atendimento
Além do suporte presencial dado ao apoio logístico, os eleitores com deficiência auditiva podem contar com a Central de Atendimento em Libras. Objeto de parceria do TRE-SP com a Prefeitura e o Estado de São Paulo, o serviço consiste numa videochamada em tempo real entre cada eleitor e um tradutor ou tradutora de Libras, com informações relativas ao pleito deste ano.
A central ficará disponível 24 horas até o dia 30 de outubro. Para utilizá-la, é necessário cadastro prévio na plataforma do canal. Para eleitores da capital, o acesso pode ser feito através de site ou aplicativo (disponível para Android e iOS). Para eleitores do interior, a inscrição ocorre pelo site ou por aplicativo (Android e iOS) do Poupatempo. No dia do pleito, o acesso também poderá ser feito por meio de QR-codes espalhados em cartazes pelos locais de votação.






